Memória
O que volta
Alguns temas reaparecem sem serem convidados.
1 de junho de 2026 · Leitura de 2 a 3 min
Nada aconteceu. E mesmo assim, aquilo voltou.
A mesma irritação com a mesma situação. O mesmo sonho, com outra roupa. A mesma hesitação diante do mesmo tipo de escolha. Volta sem aviso e sem convite — e quase sempre sem que a pessoa perceba que é a terceira, a quinta, a décima vez.
Um dia isolado raramente revela alguma coisa. É na sequência que o retorno aparece: o que se repete, o que muda de forma mas não de tema, o que sumiu por meses e reapareceu igual. Vivendo um dia de cada vez, ninguém tem esse ângulo. A repetição é invisível de perto.
Sentir o que volta é diferente de vê-lo. Por dentro, cada retorno parece inédito — a irritação de hoje parece ser sobre hoje. É só com alguma distância que os episódios se alinham e viram percurso. E aí a pergunta muda de natureza: deixa de ser "por que isso me incomodou hoje" e passa a ser "o que é isso que continua voltando".
Reconhecer o que volta não é explicá-lo. A explicação é outro trabalho, de outro tempo — às vezes com ajuda, às vezes só. O reconhecimento vem antes: é ver o desenho que os dias, um a um, não deixavam ver.
Algumas coisas voltam até serem vistas.
O reconhecimento continua sendo seu.