Terapia
A véspera da sessão
O inventário que se faz no banho.
25 de maio de 2026 · Leitura de 2 a 3 min
A lista para a sessão foi feita no banho. Na sala de espera, faltava metade.
A véspera da sessão tem um estado próprio. A pessoa começa a se organizar sem decidir que vai: repassa a semana enquanto dirige, ensaia uma frase enquanto cozinha, promete a si mesma que desta vez não vai esquecer aquilo. O amanhã começa a ocupar o hoje.
Tem algo de cuidado nisso — é o processo pedindo continuidade. Mas tem também um trabalho silencioso e repetido: confiar à memória de última hora aquilo que foi vivido ao longo de dias. A memória aceita a tarefa e entrega o que consegue: o mais recente, o mais barulhento, o que aconteceu perto. O resto fica na véspera.
Não é falta de comprometimento. É o formato do intervalo. Entre um encontro e outro, a vida acontece sem anotação — e na véspera, tudo precisa ser recuperado de uma vez, comprimido, ordenado, ensaiado.
Quem faz terapia conhece a cena de cor: a coisa importante que ia ser dita e não voltou; a sessão inteira que passou ao lado do assunto; a frase que se formou perfeita na terça e não existia mais na quinta.
A véspera não precisa carregar tudo. O que foi dito no momento em que surgiu — mesmo em uma linha, mesmo num áudio curto — não depende mais dela. Chega inteiro, com a data e as palavras que tinha.
O resto do inventário pode descansar.